Se Pedro não fosse assim tão ligeiro, eu poderia ter lhe falado antes que ele colocasse suas mãos sobre meus instintos. Por ter sido nosso primeiro encontro, achei que os acontecimentos pareceriam menos urgentes. Mas qual o quê! Tão logo sentei ao sofá, no centro da grande sala alaranjada, já estava sem as roupas. A calcinha rosaclarinho, de algodão barato da Avon, compunha um quadro azedo e engraçado depositada sobre a foto da esposa. Moldura quente de uma tela azul gélido. Se minha voz houvesse vencido o aperto abdominal que já durava meses, talvez lhe dissesse que não, amanhã não é um bom dia pra um motel bagaceiro.
Espelho no teto nunca foi das coisas que me deram tesão. Eu gosto de tamanquinho de pompom, camas redondas, vidros com pinturas de mulheres nuas. Mas espelhos no teto! Santo Deus! Esses espelhos sempre engordam a gente. Além do mais, sob esse ângulo, um cara como Pedro, esquálido e flácido, enfiado por entre nossas pernas, proporciona uma visão embrulhada e mal cheirosa. Dessas que podem recolocar na garganta o quarteirão com queijo do almoço. Fechei os olhos e mandei ver. Uma chupada. E ele mechamando de cadela, vagabunda. Isso eu não engulo.
Um galo cantou.
Odeio quando os galos cantam e eu acordo demorando em saber onde estou. A manhã entrava úmida pelo teto solar de sobre a banheira de hidromassagem. Àluz do sol, o lugar era ainda mais repulsivo. Um bilhete de Pedro ao lado da cama.Algum dinheiro. Não sou uma puta! Táxi e casa. Minha irmã cozinhava uma tortilha de batatas e espinafre.
No outro dia, Pedro buzinou duas vezes em frente a minha casa. Minha irmã veio comuma de que era burrice se meter com homem casado. Bocejei ironicamente, mas naverdade aquela conversa me cansava. Minha mãe havia morrido há pouco menos de um ano. Desde então eu não tivera vida sexual. Nem pinto, nem masturbação. Bati a porta,entrei no carro. Beijinho. Nada mal para um sábado.
Fomos a uma lanchonete no centro da cidade. Bauru ao prato pra mim. Ele passava a mão nas minhas coxas, por sob a mesa vermelha envelhecida. Nunca me lembro bem dos momentos em que me excito, mas desconfio que fiz alguns ruídos que podem ter incomodado as poucas pessoas que estavam no local. Só saí do transe quando uma mulher cruzou a porta giratória e começou a berrar às minhas costas. Veio segurando uma fotografia ampliada. Reconheci minha tatuagem de abelhinha na bunda e o pau meio mole de Pedro tentando entrar. Enfurecida, ela jogou longe sua aliança e saiu chorando, apressada. Procurei o rosto de Pedro. Ele, já levantando-se, acertou-me um tapa no ouvido e me socou a boca. Uma velha horrenda, na mesa ao lado, olhou-me. Vagabunda, murmurou. Pedro saiu.
Passei a tarde tentando um contato telefônico. Gelo no queixo. A boca tão inchada que me seria impossível falar mais de três palavras sem urrar de dor. A chuva caía fina. À noite, liguei a televisão no Fantástico. Bom tempo amanhã em Porto Alegre.
Dormi com as persianas abertas. O sol das dez da manhã, batendo sobre o cobertor, fez-me acordar. Calor. Suor. Estive a tarde no hospital. Radiografias. O doutor, um pão. Seus quarenta e cinco anos. Rogério de alguma coisa. Sobrenome italiano. A foto da mulher sobre a mesa. Perguntou onde doía.
Puxei a mão dele para entre minhaspernas.
sábado, 30 de agosto de 2008
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