"Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando da lucidez de um instante àopacidade de infinitos dias, posso ouvi-lo pensando nas diversasformas de loucura e suicídio".
Lucidez é loucura. Não percebem os homens que apenas a ilusão - de que exista o espírito e um rudimento de divino em cada objeto, de que no alto da montanha dialoga-se com certa entidade que transcenda a Vida, de que a união de quaisquer opostos resulte num equilíbrio, de que o amor seja equilíbrio, de que o contrário da fé seja o cinismo, de que cada vida seja apenas o prelúdio de outra, e de que nesta outra haverá paz - apenas a ilusão sustenta a razão. Se a todos os químicos, físicos, engenheiros e matemáticos fosse demonstrado que seu esforço éi nútil, e que a lucidez reside na ausência de balizas, exatamente no fluxo caudaloso, não teria havido nunca civilização. E, na ilusão de ser lúcido, lá se vai mais um empresário pela janela, mais um homem de terno que se atira do alto de um prédio. E apenas um louco compreenderá o significado destas lascas de crânio espalhadas na calçada.
"A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender".
E esta é a maior lucidez: recusar-se a compreender. Ser capaz de revoltar-se contra o vazio que nos oprime, ignorar as perguntas e ao invés de tentar respondê-las acender um cigarro, aumentar o volume do bolachão da Alberta Hunter mas não tanto que ofusque o som da chuva, idolatrar a obscuridade deste mundo como se idolatra o corpo de uma amante recente, pois só aceitando o obscuro é que se recusa o absurdo da vida. Lucidez é o personagem de Sean Penn em Além da Linha Vermelha indo do trabalho para casa de ônibus saindo do centro da cidade que pode ser Porto Alegre, com a cabeça encostada no vidro, do lado de dentro a opressão dos suores, bafos e corpos amontoados e fora osf luxos de pessoas aos atropelos, a cabeça encostada na janela pensando apenas na beleza que viu no rosto daquela mulher com quem há pouco tempo anunciou-se como sua, rosto azul-fim de tarde-melancolia, e saber que apenas por ela existir foste capaz de amá-la, sentir-se no lugar dela, saber disso mas não saber dizer isso, escolhendo palavras e brincando com elas porque talvez de repente se forme uma frase cheia de poesia e outros poderão descobrir que esta mulher existe. Isto é lucidez.
...to be continued
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
[diálogoembriagadocomHildaHilst-parte1]
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