quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
[diálogoembriagadocomHildaHilst-parte1]
"Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando da lucidez de um instante àopacidade de infinitos dias, posso ouvi-lo pensando nas diversasformas de loucura e suicídio".
Lucidez é loucura. Não percebem os homens que apenas a ilusão - de que exista o espírito e um rudimento de divino em cada objeto, de que no alto da montanha dialoga-se com certa entidade que transcenda a Vida, de que a união de quaisquer opostos resulte num equilíbrio, de que o amor seja equilíbrio, de que o contrário da fé seja o cinismo, de que cada vida seja apenas o prelúdio de outra, e de que nesta outra haverá paz - apenas a ilusão sustenta a razão. Se a todos os químicos, físicos, engenheiros e matemáticos fosse demonstrado que seu esforço éi nútil, e que a lucidez reside na ausência de balizas, exatamente no fluxo caudaloso, não teria havido nunca civilização. E, na ilusão de ser lúcido, lá se vai mais um empresário pela janela, mais um homem de terno que se atira do alto de um prédio. E apenas um louco compreenderá o significado destas lascas de crânio espalhadas na calçada.
"A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender".
E esta é a maior lucidez: recusar-se a compreender. Ser capaz de revoltar-se contra o vazio que nos oprime, ignorar as perguntas e ao invés de tentar respondê-las acender um cigarro, aumentar o volume do bolachão da Alberta Hunter mas não tanto que ofusque o som da chuva, idolatrar a obscuridade deste mundo como se idolatra o corpo de uma amante recente, pois só aceitando o obscuro é que se recusa o absurdo da vida. Lucidez é o personagem de Sean Penn em Além da Linha Vermelha indo do trabalho para casa de ônibus saindo do centro da cidade que pode ser Porto Alegre, com a cabeça encostada no vidro, do lado de dentro a opressão dos suores, bafos e corpos amontoados e fora osf luxos de pessoas aos atropelos, a cabeça encostada na janela pensando apenas na beleza que viu no rosto daquela mulher com quem há pouco tempo anunciou-se como sua, rosto azul-fim de tarde-melancolia, e saber que apenas por ela existir foste capaz de amá-la, sentir-se no lugar dela, saber disso mas não saber dizer isso, escolhendo palavras e brincando com elas porque talvez de repente se forme uma frase cheia de poesia e outros poderão descobrir que esta mulher existe. Isto é lucidez.
...to be continued
Lucidez é loucura. Não percebem os homens que apenas a ilusão - de que exista o espírito e um rudimento de divino em cada objeto, de que no alto da montanha dialoga-se com certa entidade que transcenda a Vida, de que a união de quaisquer opostos resulte num equilíbrio, de que o amor seja equilíbrio, de que o contrário da fé seja o cinismo, de que cada vida seja apenas o prelúdio de outra, e de que nesta outra haverá paz - apenas a ilusão sustenta a razão. Se a todos os químicos, físicos, engenheiros e matemáticos fosse demonstrado que seu esforço éi nútil, e que a lucidez reside na ausência de balizas, exatamente no fluxo caudaloso, não teria havido nunca civilização. E, na ilusão de ser lúcido, lá se vai mais um empresário pela janela, mais um homem de terno que se atira do alto de um prédio. E apenas um louco compreenderá o significado destas lascas de crânio espalhadas na calçada.
"A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender".
E esta é a maior lucidez: recusar-se a compreender. Ser capaz de revoltar-se contra o vazio que nos oprime, ignorar as perguntas e ao invés de tentar respondê-las acender um cigarro, aumentar o volume do bolachão da Alberta Hunter mas não tanto que ofusque o som da chuva, idolatrar a obscuridade deste mundo como se idolatra o corpo de uma amante recente, pois só aceitando o obscuro é que se recusa o absurdo da vida. Lucidez é o personagem de Sean Penn em Além da Linha Vermelha indo do trabalho para casa de ônibus saindo do centro da cidade que pode ser Porto Alegre, com a cabeça encostada no vidro, do lado de dentro a opressão dos suores, bafos e corpos amontoados e fora osf luxos de pessoas aos atropelos, a cabeça encostada na janela pensando apenas na beleza que viu no rosto daquela mulher com quem há pouco tempo anunciou-se como sua, rosto azul-fim de tarde-melancolia, e saber que apenas por ela existir foste capaz de amá-la, sentir-se no lugar dela, saber disso mas não saber dizer isso, escolhendo palavras e brincando com elas porque talvez de repente se forme uma frase cheia de poesia e outros poderão descobrir que esta mulher existe. Isto é lucidez.
...to be continued
sábado, 30 de agosto de 2008
[Misssimpatia]
Se Pedro não fosse assim tão ligeiro, eu poderia ter lhe falado antes que ele colocasse suas mãos sobre meus instintos. Por ter sido nosso primeiro encontro, achei que os acontecimentos pareceriam menos urgentes. Mas qual o quê! Tão logo sentei ao sofá, no centro da grande sala alaranjada, já estava sem as roupas. A calcinha rosaclarinho, de algodão barato da Avon, compunha um quadro azedo e engraçado depositada sobre a foto da esposa. Moldura quente de uma tela azul gélido. Se minha voz houvesse vencido o aperto abdominal que já durava meses, talvez lhe dissesse que não, amanhã não é um bom dia pra um motel bagaceiro.
Espelho no teto nunca foi das coisas que me deram tesão. Eu gosto de tamanquinho de pompom, camas redondas, vidros com pinturas de mulheres nuas. Mas espelhos no teto! Santo Deus! Esses espelhos sempre engordam a gente. Além do mais, sob esse ângulo, um cara como Pedro, esquálido e flácido, enfiado por entre nossas pernas, proporciona uma visão embrulhada e mal cheirosa. Dessas que podem recolocar na garganta o quarteirão com queijo do almoço. Fechei os olhos e mandei ver. Uma chupada. E ele mechamando de cadela, vagabunda. Isso eu não engulo.
Um galo cantou.
Odeio quando os galos cantam e eu acordo demorando em saber onde estou. A manhã entrava úmida pelo teto solar de sobre a banheira de hidromassagem. Àluz do sol, o lugar era ainda mais repulsivo. Um bilhete de Pedro ao lado da cama.Algum dinheiro. Não sou uma puta! Táxi e casa. Minha irmã cozinhava uma tortilha de batatas e espinafre.
No outro dia, Pedro buzinou duas vezes em frente a minha casa. Minha irmã veio comuma de que era burrice se meter com homem casado. Bocejei ironicamente, mas naverdade aquela conversa me cansava. Minha mãe havia morrido há pouco menos de um ano. Desde então eu não tivera vida sexual. Nem pinto, nem masturbação. Bati a porta,entrei no carro. Beijinho. Nada mal para um sábado.
Fomos a uma lanchonete no centro da cidade. Bauru ao prato pra mim. Ele passava a mão nas minhas coxas, por sob a mesa vermelha envelhecida. Nunca me lembro bem dos momentos em que me excito, mas desconfio que fiz alguns ruídos que podem ter incomodado as poucas pessoas que estavam no local. Só saí do transe quando uma mulher cruzou a porta giratória e começou a berrar às minhas costas. Veio segurando uma fotografia ampliada. Reconheci minha tatuagem de abelhinha na bunda e o pau meio mole de Pedro tentando entrar. Enfurecida, ela jogou longe sua aliança e saiu chorando, apressada. Procurei o rosto de Pedro. Ele, já levantando-se, acertou-me um tapa no ouvido e me socou a boca. Uma velha horrenda, na mesa ao lado, olhou-me. Vagabunda, murmurou. Pedro saiu.
Passei a tarde tentando um contato telefônico. Gelo no queixo. A boca tão inchada que me seria impossível falar mais de três palavras sem urrar de dor. A chuva caía fina. À noite, liguei a televisão no Fantástico. Bom tempo amanhã em Porto Alegre.
Dormi com as persianas abertas. O sol das dez da manhã, batendo sobre o cobertor, fez-me acordar. Calor. Suor. Estive a tarde no hospital. Radiografias. O doutor, um pão. Seus quarenta e cinco anos. Rogério de alguma coisa. Sobrenome italiano. A foto da mulher sobre a mesa. Perguntou onde doía.
Puxei a mão dele para entre minhaspernas.
Espelho no teto nunca foi das coisas que me deram tesão. Eu gosto de tamanquinho de pompom, camas redondas, vidros com pinturas de mulheres nuas. Mas espelhos no teto! Santo Deus! Esses espelhos sempre engordam a gente. Além do mais, sob esse ângulo, um cara como Pedro, esquálido e flácido, enfiado por entre nossas pernas, proporciona uma visão embrulhada e mal cheirosa. Dessas que podem recolocar na garganta o quarteirão com queijo do almoço. Fechei os olhos e mandei ver. Uma chupada. E ele mechamando de cadela, vagabunda. Isso eu não engulo.
Um galo cantou.
Odeio quando os galos cantam e eu acordo demorando em saber onde estou. A manhã entrava úmida pelo teto solar de sobre a banheira de hidromassagem. Àluz do sol, o lugar era ainda mais repulsivo. Um bilhete de Pedro ao lado da cama.Algum dinheiro. Não sou uma puta! Táxi e casa. Minha irmã cozinhava uma tortilha de batatas e espinafre.
No outro dia, Pedro buzinou duas vezes em frente a minha casa. Minha irmã veio comuma de que era burrice se meter com homem casado. Bocejei ironicamente, mas naverdade aquela conversa me cansava. Minha mãe havia morrido há pouco menos de um ano. Desde então eu não tivera vida sexual. Nem pinto, nem masturbação. Bati a porta,entrei no carro. Beijinho. Nada mal para um sábado.
Fomos a uma lanchonete no centro da cidade. Bauru ao prato pra mim. Ele passava a mão nas minhas coxas, por sob a mesa vermelha envelhecida. Nunca me lembro bem dos momentos em que me excito, mas desconfio que fiz alguns ruídos que podem ter incomodado as poucas pessoas que estavam no local. Só saí do transe quando uma mulher cruzou a porta giratória e começou a berrar às minhas costas. Veio segurando uma fotografia ampliada. Reconheci minha tatuagem de abelhinha na bunda e o pau meio mole de Pedro tentando entrar. Enfurecida, ela jogou longe sua aliança e saiu chorando, apressada. Procurei o rosto de Pedro. Ele, já levantando-se, acertou-me um tapa no ouvido e me socou a boca. Uma velha horrenda, na mesa ao lado, olhou-me. Vagabunda, murmurou. Pedro saiu.
Passei a tarde tentando um contato telefônico. Gelo no queixo. A boca tão inchada que me seria impossível falar mais de três palavras sem urrar de dor. A chuva caía fina. À noite, liguei a televisão no Fantástico. Bom tempo amanhã em Porto Alegre.
Dormi com as persianas abertas. O sol das dez da manhã, batendo sobre o cobertor, fez-me acordar. Calor. Suor. Estive a tarde no hospital. Radiografias. O doutor, um pão. Seus quarenta e cinco anos. Rogério de alguma coisa. Sobrenome italiano. A foto da mulher sobre a mesa. Perguntou onde doía.
Puxei a mão dele para entre minhaspernas.
Postado por
Dinho F
às
16:51
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